coronavírus está entre nós, com 77 pacientes confirmados no Brasilquatro deles no Rio Grande do Sul. Novos casos vão surgir nos próximos dias e nas próximas semanas. Isso é certo. O que não se sabe ainda é a velocidade da expansão da covid-19 e a dimensão que ela assumirá no país.

Pode-se tentar projetar o futuro a partir do que já se conhece a respeito da taxa de reprodução do vírus e sobre o que já aconteceu em países assolados pela epidemia – o que de fato foi feito, por exemplo, pelo Instituto Pensi –, mas especialistas alertam que há muitos fatores em jogo, capazes de tornar o cenário brasileiro bastante diferente daquele vivido em países europeus e asiáticos. Nada indica, por exemplo, que o Brasil enfrentará uma situação caótica como a que está sendo vivida na Itália.

— Por enquanto, ninguém pode dizer se vai haver uma epidemia aqui ou não. Estamos no momento de tomar as medidas de contenção para evitar que se chegue a esse estado de epidemia. Não dá para dizer que vai haver, que não vai haver nem quando será — ressalta Paulo Michel Roehe, professor de virologia do departamento de microbiologia, imunologia e parasitologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Alexandre Vargas Schwarzbold, presidente da Sociedade Rio-Grandense de Infectologia (SRGI) e professor da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), observa que na China, na Coreia do Sul e na Itália verificou-se uma linha de tempo que pode permitir certa previsibilidade: depois do primeiro caso de transmissão local, a doença cresce exponencialmente durante três ou quatro meses, atinge um pico e depois começa a declinar. Nesse caso, o Brasil atingiria o ápice mais ou menos no fim do primeiro semestre. 

— Mas não há nenhuma evidência matemática de que vai acontecer aqui o que aconteceu em outro local. Nunca se pode dizer isso. Estamos falando de ciência biológica. O pior cenário seria algo parecido com o que aconteceu na Itália, mas há vários cenários possíveis, e as medidas de contenção podem interferir na dimensão que a epidemia terá. Elas também podem mudar a velocidade do surgimento de pacientes graves, evitando sobrecarregar o sistema de saúde, o que é um ponto central — alerta Schwarzbold. 

Medidas de contenção

Uma demonstração da importância das medidas de contenção é um artigo publicado no início do mês na revista médica Lancet, citado pelo presidente da SRGI. Assinado por um grupo de pesquisadores britânicos, o trabalho estima como se dá o curso de uma epidemia de covid-19 conforme as medidas que são tomadas. Ele mostra que a adoção pela população de atitudes de prevenção resulta em um pico de casos mais tardio e menos numeroso.

Ainda que muitas variáveis possam influir no desenvolvimento da epidemia, o Instituto Pensi, vinculado à Fundação José Luiz Egydio Setubal, desenhou um possível cenário para o Brasil a partir de uma análise do ocorrido em outros países, com o objetivo de “contribuir para análise e ponderação de medidas e ações apropriadas no enfrentamento das consequências de um possível aumento significativo de casos no Brasil, nas próximas semanas”. O documento observa que, em pouco mais de dois meses, o vírus infectou mais de 100 mil pessoas e causou quase 4 mil óbitos mundo afora. 

Debruçando-se sobre esses números, os pesquisadores concluíram que, a partir do momento em que um país chega à marca de 50 pacientes infectados, o curso da epidemia segue um determinado padrão, com a decuplicação do número de casos a cada 7,2 dias. 

Extrapolando essa velocidade para o cenário brasileiro, isso significaria 4 mil casos em 15 dias e 30 mil em 21 dias (a partir do 50º caso, que foi atingido nesta quarta-feira). “Considerando as proporções de casos graves (10%) e críticos (5%) e considerando tempos relativamente conservadores de internação desses casos (sete e 14 dias, respectivamente), o cenário Brasil pode chegar a precisar de cerca de 2.100 leitos hospitalares, dos quais cerca de 525 em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), apenas nos primeiros 21 dias, após o caso de número 50”, afirma o estudo.

Comportamento das pessoas

Nesta semana, o secretário-executivo do Ministério da Saúde, João Gabbardo dos Reis, afirmou que o SUS vai direcionar 2 mil leitos de UTI para tratar dos doentes de covid-19. É uma precaução importante, mas especialistas têm esperança de que o Brasil fique longe de repetir a situação vivida em outros países. A professora de virologia Ana Franco, colega de Roehe na UFRGS, observa que se as medidas de controle forem tomadas (o que inclui o diagnóstico precoce, o isolamento dos casos suspeitos, os cuidados de higiene e a etiqueta respiratória), a disseminação do vírus pode ser controlada. 

Ela lembra que, entre os vírus respiratórios, o corona não é dos que se transmitem mais facilmente. Estudos têm estabelecido que cada doente infecta até três pessoas – no sarampo são de 16 a 18, para dar um exemplo. O coronavírus se transmite por gotículas respiratórias, o que em geral exige um contato físico, razão pela qual se enfatiza tanto a lavagem das mãos. Sendo assim, a tomada de precauções pode limitar bastante a propagação. 

— Provavelmente vai haver aumento no número de casos e talvez ocorra alguma transmissão local. Vai se atingir um número máximo e depois vai cair, o que espero que aconteça antes do inverno, porque no inverno as pessoas ficam mais fechadas, circula menos ar e há contato mais próximo das pessoas. Mas não é certo que vai ocorrer aqui um cenário como o da Europa. Acredito que haverá um aumento no número de casos, mas não teremos um quadro horroroso. Se acompanharmos a escalada da epidemia na Alemanha e no Reino Unido e compararmos com o que aconteceu na Itália, vemos que é completamente diferente. E por que é diferente? Por causa das medidas de controle. Dá para fazer um manejo. É uma questão de consciência — afirma Ana.

Fonte: Gaucha ZH