Uma análise de como a pandemia de coronavírus se comportou nos primeiros 30 dias desde que chegou ao Brasil traz um alerta importante ao Rio Grande do Sul. Embora o Estado tenha levado quase duas semanas a mais para registrar o seu primeiro caso de contaminação, depois disso passou a contabilizar um avanço da covid-19 em ritmo mais rápido do que a média nacional e até do que o verificado em São Paulo — região mais atingida.

No momento em que a epidemia fechou um mês no país, na quinta-feira (26), os gaúchos enfrentavam o seu 17º dia de confirmação da presença do vírus e apresentavam taxa de contaminação de 16,7 casos por 1 milhão de habitantes. Quando os paulistas estavam nesse mesmo marco de tempo, o índice de doentes era de 1,2 por 1 milhão — cerca de 14 vezes menos em termos proporcionais. 

Especialistas afirmam que essas estatísticas devem ser vistas com prudência porque podem esconder distorções como a aplicação de mais ou menos testes entre a população de cada lugar, mas reafirmam a importância do distanciamento social no Rio Grande do Sul neste período para reduzir o risco de uma futura explosão na quantidade de pacientes.

Enquanto o Brasil confirmou o primeiro doente da covid-19 em 26 de fevereiro, o Estado se manteve sem testes positivos por mais 13 dias, até 10 de março, quando a notificação pioneira foi feita em Campo Bom. No dia seguinte, outra foi oficializada em Porto Alegre e, desde então, as ocorrências se multiplicam. Ao final desse primeiro mês de pandemia no Brasil, quinta passada, os gaúchos somavam 190 pacientes após pouco mais de duas semanas de presença do vírus especificamente no Rio Grande do Sul — o que representa os quase 17 portadores do coronavírus por 1 milhão de habitantes.

Em comparação, quando todo o Brasil completou seu 17º dia desde o registro inicial, essa taxa estava em 0,47 por 1 milhão — cerca de 35 vezes menos do que o recorte regional (ao final dos primeiros 30 dias alcançaria 13,9). O infectologista Eduardo Sprinz, chefe do serviço de Infectologia do Hospital de Clínicas e professor da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), lembra que o Brasil é um país vasto e com muitas diferenças regionais, o que pode explicar a concentração da epidemia em algumas áreas, principalmente as mais populosas. Uma maior capacidade de diagnóstico também tende a aumentar as cifras ao gerar mais exames.

— As epidemias variam muito conforme o local em que elas ocorrem. Talvez a comparação mais apropriada seja com São Paulo, onde está o epicentro — afirma Sprinz.

Mesmo nesse cenário, há igualmente motivo para preocupação, já que os paulistas também registravam uma taxa de contaminação inferior à gaúcha no mesmo estágio de evolução da pandemia, com 1,2 testes positivos por 1 milhão de habitantes. Até o final do primeiro mês da covid-19, porém, a situação iria piorar significativamente em São Paulo — os 1.052 exames positivos anunciados até aquele momento acabaram elevando a proporção para 22,9 por 1 milhão. 

Isso significa que o isolamento social não dá o retorno esperado? Pelo contrário, acredita Sprinz. Como o efeito do menor contato social leva cerca de duas semanas para ser percebido, prazo correspondente ao tempo que o vírus pode demorar para gerar sintomas, o impacto das medidas recomendadas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) deve começar a ser percebido a partir desta semana.

— Em Porto Alegre, por exemplo, os casos ainda devem dobrar em uma semana. Depois, poderiam voltar a dobrar em apenas três ou quatro dias se não tivessem sido tomadas medidas de prevenção. Mas, se o que fizemos deu certo, esta segunda multiplicação dos casos deverá ser amenizada. É muito importante manter o distanciamento neste momento ainda — afirma o infectologista do Clínicas.

Nesta segunda-feira (30), o total de exames positivos no país chegou a 4.579, com 159 mortes e um índice de letalidade de 3,5%.