O cenário de poucos testes para coronavírus, principal causa da subnotificação de casos, está prestes a ser atenuado: o governo estadual terá à disposição, nas próximas semanas, 75 mil kits do principal exame para diagnóstico, o PCR – 10 vezes o total aplicado até agora no Rio Grande do Sul, segundo informações do Ministério da Saúde e da Secretaria Estadual da Saúde (SES) obtidas pela reportagem nesta terça-feira (28). 

Do total, 25 mil testes chegam nesta semana, enviados pelo governo federal – os outros 50 mil estão em processo de compra pelo executivo gaúcho. Até segunda-feira (27), o Rio Grande do Sul havia testado 7,5 mil pessoas – destas, 719 tiveram resultado positivo para covid-19. 

O PCR identifica a presença do coronavírus em uma pessoa com sintomas e é usado em pacientes internados. É diferente do teste rápido, que rastreia a resposta do organismo ao vírus e, portanto, tem maiores chances de dar falso negativo se for aplicado no início da infecção, quando o corpo ainda não desenvolveu defesas. 

O repasse de 25 mil PCRs do Ministério da Saúde ao Rio Grande do Sul integra o lote de 984 mil kits distribuídos pelo país ao longo da semana – o objetivo é aplicar, em todo o Brasil, 24,2 milhões nos próximos meses. Desde o início da pandemia, o Brasil fez 159 mil exames PCR. 

A taxa de testagem a cada 1 mil habitantes é de 0,75 no Brasil e de 0,7 no Rio Grande do Sul, bem longe de Itália (29,7), Estados Unidos (16,4) e Coreia do Sul (11,6). Também abaixo de Argentina (1,1), Equador (2,65) e Colômbia (1,74), segundo cálculo da reportagem comparado com dados do Our World Data, ferramenta de monitoramento de aplicação de testes PCR da Universidade de Oxford, na Inglaterra. 

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda testar em massa, mas o novo ministro da Saúde, Nelson Teich, afirmou que isso é inviável: hoje, a determinação oficial é averiguar pessoas internadas ou profissionais da saúde com sintomas. 

No Rio Grande do Sul, a grande maioria dos exames PCR é analisada no Laboratório Central do Estado (Lacen), com capacidade de processar 300 amostras por dia em até 48 horas. Mas, em várias semanas, houve atraso nos resultados, relataram médicos que trabalham em hospitais. Na segunda-feira (27), a fila estava zerada e não há retardo, segundo a SES.

Contudo, especialistas alertam que, com mais testes disponíveis e provável aumento de infectados em maio após a liberação dos serviços, há risco de o Lacen atrasar a liberação de exames. Na prática, significaria enfrentar a pandemia com dados antigos.

— Se pensarmos que ainda não chegamos ao pico, existe risco de represamento. Falta saber se a chegada dos testes será acompanhada da capacidade de analisá-los em menos de dois dias. Na prática, temos observado que o tempo de 48 horas nem sempre era possível. Essas informações dão a ideia de quantas pessoas precisam de atendimento e quando é possível suspender ou manter medidas de isolamento — observa Ricardo Kuchenbecker, professor de Epidemiologia da UFRGS e gerente de risco do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Governo busca expandir rede de atendimento

Para aumentar a capacidade logística, o governo estadual começou a firmar convênios com outras instituições para reduzir a pressão sobre o Lacen – segundo a Secretaria Estadual da Saúde, a ideia é ter um laboratório em cada uma das macrorregiões de saúde. 

O acordo com uma instituição agropecuária de Pelotas foi suspenso após questionamento do Ministério Público, mas outros prosperam – é o caso da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), que começou a processar exames na metade de abril e tem capacidade para analisar até 500 amostras por dia. A Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA) também firmou convênio e deve atuar nos próximos dias. 

Sete outras parcerias estão em processo de implementação – incluindo a Universidade de Santa Cruz (Unisc), o Tecnosinos de São Leopoldo e o Hospital Universitário de Santa Maria.

Além disso, alguns hospitais contratam um dos 14 laboratórios privados autorizados pelo governo gaúcho a realizar exames PCR – nestes locais, o resultado é reconhecido e entra direto para as estatísticas oficiais. Na lista, há empresas privadas e faculdades, como Feevale e Univates. 

Uma menor parte dos exames é processada, além do Lacen e de laboratórios privados, por hospitais com laboratórios próprios, como o Clínicas de Porto Alegre e a Santa Casa – o Moinhos de Vento deve inaugurar um nesta semana, segundo a instituição.

A prefeitura de Porto Alegre também se mexeu e, na segunda-feira, anunciou que fará 580 testes PCR por dia, em convênio com Santa Casa, Moinhos de Vento, Grupo Exame e Peritos Lab. Hoje, cerca de 280 pessoas são testadas por dia. 

— Dizer que o Estado está pronto é difícil. Houve maior oferta de testes nas últimas duas semanas, alguns hospitais se organizaram e muitos laboratórios privados passaram a oferecer testes. Mas muitos desses laboratórios levam seis dias para entregar o resultado, o que não adianta. Estamos em condições muito melhores do que antes, mas a capacidade de resposta dependerá do ritmo da epidemia — avalia Alessandro Pasqualotto, professor de Infectologia na UFCSPA e diretor do laboratório de exames da Santa Casa.

A diretora do Instituto de Ciências Básicas da Saúde da UFRGS, Ilma Brum da Silva, chegou a declarar, no início do mês à Rádio Gaúcha, que a capacidade de testagem no Estado estava aquém da demanda. Entretanto, após os convênios firmados pelo governo estadual, incluindo na universidade onde ela trabalha, a professora de Departamento de Fisiologia reavalia:

— Já estamos com uma logística que dá conta da demanda do Estado. Nossa taxa de testagem está baixa, mas a determinação é para testar um público mais reduzido. No Rio Grande do Sul, pelo número de casos que temos, acho que, por enquanto, está tranquilo — afirma.  

Testes rápidos também devem aumentar

Autoridades trabalham também para expandir a disponibilidade de testes rápidos, usados como apoio para diagnóstico de covid-19. Eles identificam, na prática, quem se contaminou e foi curado. Isso é importante em uma “segunda fase” da pandemia, quando a doença se espalha. 

O Ministério da Saúde já entregou 2 milhões de testes rápidos aos Estados e pretende chegar a 22 milhões. Somando com os exames PCR, o Brasil testaria 46,2 milhões de pessoas. No Rio Grande do Sul, o governo federal repassou 150,3 mil testes rápidos e, neste momento, a Secretaria Estadual da Saúde está comprando 30 mil testes rápidos. 

Essas testagens se somam às provas feitas em laboratórios privados, pagas pela população de forma particular, e às testagens feitas por empresas privadas em seus funcionários – a Câmara Brasileira de Diagnóstico Laboratorial (CBDL) estima que o setor privado já comprou ou negocia mais de 24 milhões de testes rápidos, que chegam ao país entre maio e julho.

O governo estadual não controla absolutamente todos os resultados de testes rápidos feitos no Rio Grande do Sul: apenas insere nas estatísticas oficias os casos diagnosticados por empresas ou prefeituras e que são comunicados à Secretarial Estadual da Saúde – se isso ocorrer, o teste rápido vale por conta própria e não exige contraprova. A SES afirma que cabe às prefeituras informar ao governo estadual a confirmação de um caso de coronavírus. 

A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ainda aprovou, nesta terça-feira, a aplicação de testes rápidos em farmácias de todo o Brasil. A medida vale a partir da publicação no Diário Oficial da União.