Enquanto parte da população resiste às regras de distanciamento social, baixa a guarda e pressiona por reabertura, o Rio Grande do Sul atinge, nesta quarta-feira (24), uma marca sombria: cinco centenas de mortos por coronavírus. Mais do que um número, são pais, mães, filhos e avós, vítimas da peste do século, que dissemina traumas, desestabiliza famílias, propaga incertezas — e não pode ser menosprezada.

O impacto psicológico da catástrofe, na avaliação do psiquiatra Vitor Calegaro, professor Departamento de Neuropsiquiatria da Universidade Federal de Santa Maria (UFSM), ainda está longe de ser conhecido, e o recorde trágico é simbólico.  

— Vivemos um momento gravíssimo. São duas boates Kiss (em número de óbitos), e muita gente parece não ter se dado conta disso. Se a situação seguir se agravando, e, infelizmente, essa é a tendência, corremos o risco de ter epidemias de transtornos mentais que vão perdurar por muito tempo. Como sociedade, somos desafiados a lidar com esse legado desde já — alerta o especialista, que coordena uma pesquisa sobre os efeitos emocionais da covid-19 e acompanha sobreviventes da tragédia na Kiss.

Doença nova, ainda sem cura e altamente transmissível, o coronavírus amplifica o potencial traumático, individual e coletivo. O adoecimento súbito implica isolamento. As pessoas que perderam parentes e amigos para a enfermidade mal conseguiram se despedir. Quinhentos infectados foram velados às pressas, sem tempo para o luto. 

— É uma situação completamente atípica, distinta da morte natural ou por outra doença. Além disso, tem tudo o que vem depois: as perdas financeiras, a desorganização familiar. Tudo é diferente numa pandemia — analisa Calegaro.

 Veja a evolução dos casos no país em site do Ministério da Saúde 

O momento também é único para quem está na linha da frente dos serviços de saúde, lutando para salvar vidas e se expondo a riscos. Não há como não sentir as perdas e temer pelo futuro.

— A gente está vivendo um momento que nenhum intensivista pensou em viver. É uma situação nunca vista. Enfrentamos o H1N1, mas aquela experiência não chega nem perto do que estamos passando agora. Temos recebido de sete a 10 pacientes por dia com insuficiência respiratória, de todas as idades, inclusive jovens sem nenhuma comorbidade, e mesmo eles estão morrendo — relata Thaís Butelli, médica intensivista e coordenadora do Time de Resposta Rápida do Hospital de Clínicas de Porto Alegre.

Desde 2012 trabalhando em UTIs, Thaís acredita que a percepção da gravidade é limitada para parte da população, porque não se vê o que ocorre dentro das enfermarias e unidades de terapia intensiva. A infecção pode parecer algo distante, mas não é. Todos os dias, médicos como ela temem ter de escolher quem salvar. Se as pessoas não se cuidarem, reforça a intensivista, o número de óbitos poderá ser muito maior do que os 500 registrados até agora.

— A sociedade tem de se isolar e permanecer o máximo possível em casa. Se a gente conseguir fazer isso hoje, pode ser possível desacelerar os contágios. Do contrário, entre o fim de junho e o início de julho, poderemos atingir o pico da curva e aí teremos de fazer escolhas, como já aconteceu no mundo inteiro. Esse jamais deveria ser o papel de um médico — conclui Thaís.

Números do coronavírus no RS

  • 22.009 casos confirmados (1.160 nas últimas 24h)
  • 500 óbitos (23 registros nas últimas 24h)
  • 17.580 pessoas consideradas recuperadas (80%)

Fonte: GauchaZH