Com redução de quase 40% nos homicídios nos primeiros nove meses deste ano, Alvorada, na Grande Porto Alegre, consolida o caminho para se afastar do título que nunca se orgulhou de ostentar: o de cidade mais violenta do Estado e uma das mais perigosas do país. Em 2021, foram 56 assassinatos no município de 212 mil habitantes — no mesmo período do ano passado tinham sido 92. Embora ainda seja a terceira com mais crimes desse tipo no RS, ocupava até o ano passado a segunda posição, ficando atrás apenas de Porto Alegre.

A receita de Alvorada para conseguir frear a criminalidade passa por série de fatores e ainda enfrenta desafios. Em um cenário no qual o tráfico segue como responsável pela maioria dos assassinatos e o crime organizado se mantém enraizado, especialmente em comunidades vulneráveis, evitar que criminosos se digladiem, resultando em homicídios de envolvidos com o crime ou mesmo de inocentes, é uma das estratégias empregadas. Saber onde estão e como se comportam as facções, para coibir enfrentamentos entre rivais ou tentativas de dominação de territórios, está entre as formas de prevenção.

— Mapeamos as áreas de possível beligerância entre criminosos e mantemos o policiamento mais incisivo, mais contundente, nesses pontos. Sabemos que, neste meio do crime, a pena para quem fez algo de errado é a morte, a violência no grau mais exagerado. Essa ocupação, além de combater a facção que atua ali, evita que tentem tomar outros locais, e faz com que não ocorram esses conflitos, essa guerra, entre grupos opostos — detalha o comandante.


Enquanto no policiamento ostensivo a fórmula é dar visibilidade, com viaturas, policiamento a cavalo e aeronaves, a inteligência atua de forma discreta, analisando cada caso e tentando identificar quem são os responsáveis por eles, para evitar que novos ocorram. No mês de setembro, a BM fez 79 prisões e realizou 11,2 mil abordagens a veículos e pessoas.


— O crime organizado é uma espécie de “indústria”, a gente retira de circulação, e eles repõem. É um constante combater. É um trabalho de inteligência e aplicação dos recursos de forma cirúrgica na localidade. É assim que nossa repressão qualificada atua. Está dando certo, felizmente — analisa o comandante.


Da mesma forma, o delegado Edimar Machado de Souza, à frente da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) de Alvorada há quatro anos e meio, viu a realidade se alterar ao longo do tempo. Em 2017, a cidade teve nos primeiros nove meses 159 homicídios, quase o triplo do registrado agora. Para o policial, o cenário é resultado de ações implantadas no período. O município está entre os que foram priorizados, por exemplo, no programa RS Seguro, implantado em 2019 pelo governo do Estado, para o combate à criminalidade. 


O delegado acredita, inclusive, que manter a mesma equipe na apuração dos crimes auxilia na compreensão do panorama das organizações criminosas, ou seja, de quem está por trás dos delitos. Neste ano, a DHPP realizou 146 prisões na cidade.


— Quando há um homicídio, já temos ideia de qual facção está envolvida e quem são os indivíduos que atuam como executores daquele grupo. Hoje não temos nenhum grande matador solto em Alvorada. Trabalhamos para retirar rápido de circulação os matadores que vão surgindo. Há uma hierarquia dentro da facção. Quando se começa a atuar como matador, se não prender logo, vai cometer diversos homicídios — explica.

Integração e videomonitoramento


Foto: Omar Freitas / Agencia RBS

Central de monitoramento do município, que conta com total de 500 câmeras


A integração entre as forças da segurança é apontada tanto pela Polícia Civil quanto Brigada Militar e Guarda Municipal como fator essencial na luta contra o crime. A troca de informações, experiências e estratégias, além da atuação em conjunto em operações, é uma das fórmulas aplicadas constantemente no município.


— É graças aos esforços de todos os órgãos de segurança, unindo forças no mesmo objetivo, que conseguimos alcançar esses índices ao longo dos anos, cada vez diminuindo mais — comemora o secretário de Segurança e Mobilidade Urbana do município, Sérgio Coutinho.


O titular da pasta aponta ainda a estruturação da Guarda Municipal e investimento em videomonitoramento como alguns dos ingredientes fundamentais para o impacto sobre a criminalidade. Alvorada, atualmente, conta com 55 servidores na Guarda Municipal, 60 na Guarda Patrimonial e 25 no trânsito.


— Temos mais de 500 câmeras pelo município, em vias públicas, escolas, postos de saúde, em todos os prédios públicos e nas entradas e saídas da cidade. É uma ferramenta importantíssima na prevenção da violência, que permite antecipar situações de risco — afirma.  


Aproximação com a comunidade

Embora a queda no número de homicídios venha se mantendo em Alvorada, a taxa ainda é de 26,6 para cada 100 mil habitantes, o que representa mais do que o dobro da registrada no Estado (10,2). Por outro lado, é um avanço em relação ao mesmo período do ano passado, de 43,3. A tendência, até agora, é de que em outubro a redução se mantenha. No mês, foram registrados três homicídios no município, enquanto no mesmo período do ano passado foram 11 vítimas.


Um dos desafios para o futuro, além de reduzir ainda mais os números, é a prevenção. Na tentativa de manter a aproximação com a comunidade, a Brigada Militar disponibilizou o WhatsApp para receber informações e denúncias. Ao mesmo tempo, vem se envolvendo em atividades sociais. 

Fonte: GauchaZH


Deixe seu Comentário